sexta-feira, 29 de outubro de 2010

acordei pensando nesse

"(...)um bom poema
 leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto"

Paulo Leminski - Amor Bastante
liberdade

fala                                                                 presa
cala                                                                 solta  


junta
                                                                parte                          volta




passa 





passa


 junta                  junta



liberdade
junta solta.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Escrever é transbordar no papel.

Fé: Fidelidade em honrar seus compromissos, lealdade, garantia: a fé dos tratados. / Confiança em alguém ou em alguma coisa: testemunha digna de fé; ter fé no futuro. / Crença nos dogmas de uma religião; esta mesma religião: ter fé; a propagação da fé. / Crença fervorosa: fé patriótica. / Afirmação, comprovação: em fé do que lhe digo... / Testemunho autêntico que certos funcionários dão por escrito: a fé do tabelião. /Estar de boa fé, estar convencido da verdade do que se diz; estar de má fé, saber muito bem que se diz uma coisa falsa; ter intenção dolosa. 

Dicionário Aurélio (on-line, diga-se de passagem, cumprindo o clichê atribuído à minha geração).

Certamente, não é à fé do tabelião que me refiro. Não me interesso muito por tabeliões e/ou testemunhos autênticos de funcionários. Não refiro-me, também, à fé religiosa. Já é avançada a hora e tal assunto ateria-me por muito a esta página em branco.  

Penso, afinal, sobre "confiança em alguém ou alguma coisa: testemunha digna de fé; ter fé no futuro."

Noutro dia, uma pessoa disse admirar minha coragem. Coragem? "-É, você acredita tanto nas coisas, não tem medo." Ao que respondi: "-Eu tenho fé."
Desde então, minhas próprias palavras ecoaram em minha cabeça e fizeram-me pensar algo em outra direção. Pensei, talvez, em covardia. Covardia? 
Já veio à minha atenção o fato de que o quão mais crítica determinada situação se apresenta, maior a capacidade de acreditar. A capacidade de ter fé. É o que nos resta. Seja assim talvez uma espécie de covardia. A necessidade de crer que não importa a quantidade de paralelepípedos a vida nos ponha na frente, de alguma maneira, conseguiremos seguir chutando. A necessidade de não pensar em os paralelepípedos não moverem-se. O medo de não pensar, eu diria. Movidos pelo medo, acreditamos. Acreditamos com todas nossas forças, colocamos fé no futuro. 

A boa notícia é que não me importo. Por coragem, covardia, mania ou costume, a gente segue acreditando. Mesmo com todo emblema, todoo  problema, todo o sistema, todo Ipanema, a gente vai levando, a gente vai levando essa gema...  

O Chico vai e eu também vou.



quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Possuo passatempos bobos e/ou sem cabimento. Coisas que, até onde eu sei, só eu vejo graça em fazer.
Não resisto ao entregador de flores. Não posso ver um na rua que me ponho a imaginar.
Quem as receberia, por qual motivo. Gostaria? Colocaria em um vaso, debaixo de sorriso ou lágrima. Seriam lágrimas de alegria, tristeza? Raiva, emoção? Talvez permaneceria incólume, não moveria um músculo da face.
Quem as mandou, por sua vez, viveria o mistério que envolve a espera. Receberia uma ligação de agradecimento, ou uma esperada aceitação de um pedido de desculpas? A dor do desprezo ou a surpresa de lágrimas de emoção batendo à sua porta?
Quanta coisa se tem para imaginar ao vislumbrar um entregador de flores. Deve ser um ofício interessante, esse. Imagino quanta emoção não vai sendo acumulada ao longo do dia, e dos dias, como aquela pirâmide de energia da natureza que aprendemos (ou não) nas aulas de Biologia.
Pergunto-me se o entregador ainda conservaria a capacidade de comover-se após anos e anos de faces moldadas pelos mais diversos sentimentos. Penso que das duas uma: ou tornaria-se poeta ou agiria mecanicamente como quem trabalha no caixa do banco. Temo ser a segunda hipótese mais provável. É sempre mais raro a gente seguir a emoção. Uma pena.

Acho que entregadores de flores dariam ótimos poetas.


A próxima vez em que eu receber flores - caso aconteça - prestarei atenção no entregador. E, como faço inevitavelmente ao longo de toda minha vida, deixarei transparecer minha emoção, seja ela qual for. Quem sabe ele não escreve um poema.

sábado, 9 de outubro de 2010

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Pão e Circo

"Gostei. E o público de Paulínia, este primeiro público de convidados, também gostou. Aplaudiu bem no final. Filme forte, bem feito, com cenas de impacto. Gostei, mas em termos. Sinto falta da mesma coisa que sentia em relação ao Tropa de Elite 1: um pouco de sutileza, mais senso de nuance, respeito pela complexidade das coisas. Padinha gosta de simplificar, o que é ok. Só que perde em profundidade. Mas o filme impressiona em vários momentos. Aqui em Paulínia foi aplaudido durante a projeção algumas vezes. Em especial numa hora em que o agora coronel Nascimento cobre de porrada um desafeto e o ameaça de morte. Uma moça ao meu lado, muito bonita e bem vestida, aplaudia freneticamente. As pessoas gostam desse tipo de coisa."

Por Luiz Zanin in Cinema, cultura & afins - Estadão online. 06.out.2010
Sobre o filme Tropa de Elite 2.

"As pessoas gostam desse tipo de coisa."  Sim. Tristemente, elas gostam. As massas deleitam-se ao testemunhar a brutalidade, seja ao vivo ou na grande tela. Penso que extravasam suas frustrações, desgostos e infelicidades (palavra que poderia ser substituída por futilidades) por meio da aplicação de brutalidade para com o próximo.

E assim brutalizam cada vez mais a si mesmas.