segunda-feira, 2 de abril de 2012

da janela

pediu perdão
pelo vão
da aliteração
e disse:
a calma
acalma
a alma
pediu perdão
pela chateação 
e sina
da rima
e partiu. 

domingo, 4 de março de 2012

correspondência

parte IV

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“Rio de Janeiro, Verão.

Agradecimento, acredito, ser o justo e digno a ser feito a este ponto, desta hora. Perguntaste-me ser o motivo do silêncio das letras restar vazia quem vos escreve de sentimentos ou de razão, a ponto de não conseguir juntá-las na metragem da palavra feita. De minha resposta brotaram estas palavras que lhe teço, que juntas em sequencia tornam-se esta correspondência, ou do que se chama. Juntas tornaram-se metragem de palavra feita, e por isto lhe vem o agradecimento.  

De vazio do sentir não há, nem de perto nem de longe, nem de distância arrazoada, que se falar. Não creio que virá de haver, ainda nesta vida. Quando se nasce para sentir, meu caro, não é caminho que se toma de volta com trouxa dependurada do ombro, a caminhar de chinelas, calor que faz nessa estrada de terra. De vazio de razão, poderia se falar, não mais que desejaria se falar, se pudesse. Se esta, o mármore das exatidões que seguram a trama, não nos fosse cobrada pela vida. Pode-se ignorar, mas a que preço, meu caro,  lhe pergunto. Não, dela também não houve esvaziamento que se faça notar.

Posso lhe falar das torrentes, das enxurradas, dos atropelos que sofri e pratiquei ao longo desse inverno das letras em série. Posso lhe falar da inquietude de pensamentos ligeiros e fugazes, que ao final da consideração já não mais existiam, mas em seu lugar, semente para o próximo. E assim foi, neste período que perguntaste a ti mesmo por onde andavam as palavras que saem destas mãos – com o perdão da sinestesia adaptada -, que nasciam e se punham com o sol, no mesmo dia, nas mais inquietas divagações e nos mais borrados traçados.

Há de se ter paciência e aceitação com ela, a vida, e respeito ao seu deslinde. Ora, se não querem as letras pôr-se em fila indiana e formarem palavras, que não o façam, não há de se perderem, quando do tempo oportuno, nos dão notícia de volta.

Não se aflija, meu caro, se tuas letras não se juntam, se tua sequencia de viver se assemelha a rio quando do encontro da pororoca. Tal qual natureza de nascente, elas sabem quando voltar a ti, assentar e agruparem-se novamente. Deve-se esperar, a isto e a tudo o mais. O mais nos vem ao encontro, se permanecemos caminhando.

Meus melhores sentimentos, caro.”

domingo, 22 de janeiro de 2012

colóquio



Como tudo na vida, o Colóquio tem início, meio e fim. A gente precisa estar atento para não perder cada transição de momento. Como tudo na vida. 

Chega o momento final de Colóquio, da Julieta e do Fernando. Eles agradecem a atenção e mandam baixar a cortina. Até loguinho. 

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parte FINAL

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- Aquele ali também. É seu.

- O Dylan não era seu?

- Não. Você comprou na liquidação, lembra? Dois dvdês pelo preço de um. Leva.

- Ah...

- Leva também o Salinger.

- É seu, Julieta. Te dei no nosso primeiro Natal.
- Eu sei. Leva.

- Ok.

Silêncio.

- E o apê novo? Tá se acostumando com Botafogo?

- É, não é ruim. Tem mais barulho. Faz companhia ao meu silêncio.
Silêncio.

- Olha, não foi por não amar. A gente amou. Não amou, Fernando?

- Sim. Ou descuidou do resto. Tem quem diga que é a mesma coisa.

- E agora?

- Agora gente cuida de novo. -- Fernando responde com a resignação de quem já respondeu a pergunta a si mesmo.

- Silêncio.

- Fernando?

Promete que não descuida assim com mais ninguém?

- Prometo.

- Ok. Não esquece o Dylan.

- Ok, Julieta.

 -- Barulho da grade do elevador. 


domingo, 8 de janeiro de 2012

azulão


- Como é que é, não sai texto novo? Duas semanas, meu caro. Avie-se.

Já estava cansado daquilo, sua arte, sua abertura de comporta, seu ponto que foge da linha, parecia agora repartição, era cobrado, carimbado, lhe obrigava a sentir. Que espécie de coisa se sentia obrigado. Não haveria de ser grande coisa, pensava.

Precisava, precisava cumprir com as contas, precisava cumprir. Que raios de tudo na vida ser cumprimento, diacho. Contador, devia ter se formado contador. Vai ser escritor e poda a arte pela raiz. É isso que se faz com a arte na redação, se poda, pensava, em seu motim interno.

- Está bem, não amole. Vou viver e volto.

- Pois vai aonde ao meio do expediente, homem? Endoideceu?

- Sem vida, sem palavra. Até mais tarde.

E foi-se, mãos no bolso, Avenida Rio Branco abaixo, olhando para cima. Aquele azul tão grande distraía, e precisava concentrar-se.  Duas semanas. Aviar. Nada de céu.

Observava então os transeuntes, tão ocupados, quantas caras de resignação. Impossível haver tanta gente resignada no Rio de Janeiro. Devem estar fingindo, concluiu. Parecer distraído não é permitido. Não no Centro da cidade, numa quarta-feira à tarde do preguiçoso e já folião mês de janeiro. Há de se fazer esforço dobrado no semblante da resignação. E suado. Que calor fazia, meu caro.

Concentrava-se em espantar a distração, a respiração, o azul, o suspiro. Suspiro também não pode, tem emoção, suspiro não cumpre prazo, suspirava, já sentindo saudade do suspiro.  Como é, duas semanas. Rápido, apertar o passo era mandatório, quem precisava cumprir tinha de apertar o passo. Firula de prosador, isso de andar devagar. Assim não cumpre, e precisava cumprir.

Parou no balcão, pediu um suco de laranja. Com gelo, bastante gelo. Que calor de matar. Suspirou pensando no ar-condicionado da redação. Condenou-se por esquecer, suspiro não pode. Nem olhar para cima. Azul não pode. Azul é poesia, não escrevia na sessão de poesia, privilégio dos dias de sábado. Escrevia no caderno da cidade, tinha de falar das obras de modernização do porto, do estacionamento irregular aos fins de semana, do choque de ordem nas praias. Não podia falar do céu, oras, tinha de cumprir.

Lembrou-se de seus dez anos de idade, da escola, da bermuda marrom, da professora Sônia de Língua Portuguesa, do ovo. O ovo da Cecília Meireles fascinaria sua vida todos os dias, a partir daquele. Desde infante se deliciava com os textos contidos na apostila de Gramática da Língua Portuguesa. A professora Sônia mandava ler, ele já tinha lido. Lera na aula de Matemática, na aula de Ciências, não resistia.

Pois bem, naquele dia de verão, sentado ali à transversal da janela que denunciava a vida lá fora, ouvia a professora Sônia ler o tal texto do ovo. Ela dizia:

“- Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na porta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Neste ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.”

Acreditava ter sido originada, neste dia, sua ternura por céus azuis, sua atração, seu fascínio em olhar para cima, principalmente ali, no Centro da cidade, onde todas as espécies de arquitetura varam o azul exprimindo uma sequência distinta e indubitavelmente fascinante de épocas, anos, vidas, céus.

Final do suco de laranja, gelo mastigado, não podia sentir-se completamente feliz. E as obras, e o choque de ordem? Deveria ater-se ao caos, ao desande, ao concreto que não varava tempo.

Mãos no bolso novamente, retornaria. Poderia caminhar até a Praça Tiradentes, de nada adiantaria, a resignação não o contagiava, a pressa não o atingia, o pé-ante-pé lhe parecia nada mais justo que valsa, estava vivo, afinal, qual seria o problema daquela gente, não saberiam estarem vivos? Sentia vontade de berrar à face de um a um e informá-los disso, transeuntes resignados, corram e olhem o céu, obedeçam à canção. Não berrou. Nem berraria, seria detido por insanidade e não escreveria o bendito texto, não cumpriria. Duas semanas, Otávio, duas semanas.

Não voltou à redação naquele dia. Nem no dia seguinte. Ouviu-se, meses depois, num bar na Praça Santos Dumont, sobre uma tal nova editora – Editora Azul. Estupendas publicações, disse um, ao que outro retruca que assim ouvira falar, que esse Otávio sabe o que faz.

Dedicada a obras sobre a cidade, todo o tipo de conteúdo, da prosa à poesia, do suspiro ao berro – lia-se na contracapa das obras publicadas. Naquela quarta-feira à tarde do preguiçoso e já folião mês de janeiro, Otávio decidira que sabia o que fazia. E fez.

Alguma coisa na vida a gente há de saber que sabe. Mais cedo ou mais tarde, a gente há de se aviar. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

colóquio

parte IX

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- O que você espera, afinal?

- Eu não sei o que eu espero, Fernando. Eu só desconfio.

Eu desconfio que espero que um dia, assim sem mais, enquanto eu estiver no sofá da sala assistindo a algum filme sem nexo causal no Eurochanel, você vai bater à minha porta. Você vai bater à minha porta e dizer que confessa. Que confessa que eu fui seu grande amor, tal qual a canção. E que ainda gosta de petipoá, aquele misto de ervilha com milho em conserva.

- E depois?

- Depois eu não sei. Talvez eu feche a porta volte a assistir ao filme, talvez eu estanque na porta e desande a chorar, talvez a cena corte, insinuando o que vai acontecer em seguida, que não é exibível no horário da tarde. Talvez você nunca venha. Talvez você nunca bata à minha porta. Você nunca visitou minha casa nova, não deve saber o caminho.

- Eu sei o caminho, Julieta.

- Você bateria à minha porta, Fernando?

- Sabe, eu já cheguei perto e dei meia-volta. Você nunca desconfiou. 
  

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

para exprimir


Hoje é dia de homenagem. A homenagem vai para ela, a mãe de tudo o que figura nessa publicação eletrônica e em tudo o mais. A homenagem vai para ela, a Arte.

Não, que eu saiba, hoje não é Dia da Arte – que, se não existe, deveria. Acontece que o dia de hoje me permeou da necessidade de prestar essa justa homenagem.

Pois bem, como vocês, estimados leitores, já devem saber ou haver percebido – ou não, há sempre os desavisados na vida, que aqui, nesta publicação, jamais serão descriminados – que a voz que vos escreve está escrevendo um roteiro de filme. Desconheço o processo de criação dos demais roteiristas, mas grande parte do desenrolar de minha narrativa foi fertilizado em viagens de ônibus, adoráveis caminhadas na Av. Rio Branco à tarde, especialmente naquele pedacinho tão belo ladeado pelo Municipal, a Biblioteca e o Odeon, e pelas longas muradas da Av. Visconde de Albuquerque. Sempre dão pano para imaginação.

Como de hábito, em meu caminho no coletivo de volta a casa após a labuta, estava a pensar no desenrolar da famigerada narrativa. De súbito, pensei em matar o personagem principal, que faz um ex-par romântico com a outra personagem principal. Em seguida, pus-me a imaginar, cena a cena, as sensações da personagem, seus pensamentos, sua vida.

Neste momento, começa a chover e pingos d’água salpicam a janela do coletivo. Quando dei por mim, um arrepio tomou-me conta, de cabo a rabo, e meus olhos umedeceram. Quando dei por mim, vi-me emocionada por sensações tais quais como se assiste a um filme – já finalizado, devo ressaltar.

Instantânea foi minha admiração ao constatar que um simples esboço de arte querendo nascer já foi suficiente para provocar sensações levadas à flor da pele. Como podia, tal qual magia. 

Lembrei-me dos versos de Ferreira Gullar: “Uma parte de mim/é só vertigem:/outra parte,/linguagem.//Traduzir uma parte/na outra parte/que é uma questão/de vida ou morte /será arte?”  Sim, será.

Um brinde.

domingo, 11 de dezembro de 2011

correspondência

parte III


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“Rio de Janeiro, Verão

Se lhe escrevo num dia de domingo em que achei que o sol viria, e não veio, é porque protelei por toda a semana o desague. Isso de escrever correspondência é desague. Desague a gente protela até rebentar. Rebentou.

Sabe, caro, já ouvi dizer que parece corda torcida, que a gente força até romper, mas não rompe nunca. Só torce. 

Ouvi dizer, ali, que parece aperto, afogamento, pedra no peito. Prendi o ar até estancar e nada. Não se pareceu. Nada se parece.

Disseram-me ser silêncio. Calei-me horas, dias, passaram, passei. Nada. De longe, talvez. De perto, pouco fazia jus.

Ar sofrido, disse João Guimarães Rosa. Disse que era ar sofrido. De ar, só tenho esse, caro. Esse ar a gente não vê. Nisso, talvez se achegue perto, isso da gente não ver. Não se vê, não se tateia. Só se conta, se descreve, se canta, se proseia.

A essa hora, prezado, já posso prosear tantas outras proximidades que podiam fazer jus a explicação a contento. Parece que pensar é viver novamente. Espero haver ainda, em algum momento, sujeito que vá suceder na descrição, o que não fiz. Por ora, creio não o fazer.

Por ora, meu caro, creio não haver conseguido atingir o objetivo dessa correspondência e explicar, aos por menores que sejam fiéis, o que é, afinal, toda a saudade que se sente. Mais tarde, talvez.

Meus melhores desejos, caro amigo.”